04 de setembro de 2010
Importância estratégica

Influência do profissional de RI cresce à medida que o mercado brasileiro amadurece, diz vice-presidente do Ibri, André Dorf

 

 

POR LÉA DE LUCA
 
O administrador de empresas André Dorf, vice-presidente do Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (Ibri), fez carreira no mercado financeiro antes de entrar no mundo dos profissionais de RI. Sua experiência no negócio de fusões e aquisições, acumulada durante os sete anos que trabalhou no banco de investimentos americano JP Morgan, abriu caminho para ocupar, desde 2003, a recém-criada diretoria de novos negócios da Suzano Papel e Celulose. Em 2005, quando a companhia decidiu mudar sua estrutura organizacional para um modelo baseado em unidades de negócio, Dorf assumiu uma delas (a de papel), onde ficou por três anos. Em 2008, quando estava com 35 anos, foi alçado a diretor de uma nova área, recriada a partir da diretoria que ocupara inicialmente, que desde então passou a incorporar a área de relações com investidores. “A empresa tinha muitos projetos na época, estava encerrando um ciclo de crescimento importante e queria abrir outro ciclo – de 2002 a 2008, a Suzano quase triplicou de tamanho por meio de aquisições e crescimento orgânico, com a construção da maior fábrica de celulose do mundo na Bahia em 2007 e a compra da Ripasa, um concorrente importante. Este ciclo nos levou a uma produção de 2,9 milhões de toneladas anuais.”
 
Apesar de relativamente novato na área de RI, Dorf está convencido de que a ocupação é estratégica para todas as companhias – e disso ele entende muito bem. Atualmente, é o responsável, por exemplo, pelos novos projetos da Suzano no Maranhão e Piauí: duas fábricas de celulose que vão dobrar a capacidade de produção da companhia nos próximos quatro anos. São negócios que vão ter impacto no valor de mercado e na percepção dos investidores sobre a empresa, reações que o departamento de RI terá de administrar. Há um mês a companhia anunciou a intenção de comprar uma empresa de biotecnologia no Reino Unido, a FuturaGene. “Assim que fizemos a proposta na Bolsa em Londres, comunicamos aos investidores.” A FuturaGene aceitou a proposta em 22 de junho.
 
Nesta entrevista concedida no final de junho, na sede da Suzano Papel e Celulose, em São Paulo, Dorf fala do florescimento do mercado de capitais brasileiro e dos desafios da profissão na retomada do crescimento econômico, tema do 12º Encontro Nacional de Relações com Investidores e Mercado de Capitais, promovido pelo Ibri e pela Associação Brasileira das Empresas do Mercado de Capitais (Abrasca), nos dias 14 e 15 deste mês, em São Paulo. Acompanhe a seguir os principais trechos:
 
 
Razão Contábil – Como foi a experiência de assumir a área de RI na Suzano às vésperas do estouro da crise financeira internacional? Qual é o papel do RI na crise?
André Dorf – Os momentos de crise são extremamente importantes para o RI. Ao contrário do que muita gente pensa, em vez de ficar na defensiva esperando questionamentos, o RI precisa explicar voluntariamente os impactos da crise, seus desdobramentos: falta de crédito, influências no balanço e na liquidez, quais serão os mercados mais atingidos, quem são os principais clientes, qual a expectativa de inadimplência a curto e longo prazos, a questão do câmbio – como exportador, nos beneficiamos da desvalorização do real... Enfim, cabe à empresa explicar as consequências da crise ao mercado de maneira proativa.
 
RC – E na saída da crise, o que o RI deve fazer? Quais os desafios na retomada? Que postura deve adotar?
AD – Muita gente acha que RI é aquela estrutura interna que vai se relacionar da porta para fora da empresa, pouca gente percebe que temos um trabalho grande da porta para dentro. O RI é o profissional que deve disseminar a cultura e os conceitos de mercado de capitais dentro da empresa, fazer com que cada empregado sinta no sangue as demandas do mercado de capitais, fazê-los entender o reflexo do trabalho dele sobre o valor da empresa, no preço das ações; e também trazer informações do mercado para dentro da empresa. Além disso, tem uma parte de inteligência de RI que pouca gente percebe quando vê o profissional atuando: a parte de targeting (análise da base de investidores), a preparação para as divulgações. Existe um trabalho importante atrás do palco do RI. O trabalho permeia toda a empresa, todos os públicos, dentro e fora, no Brasil e no exterior. Toda empresa tem uma equipe trabalhando para isso. Na Suzano, por exemplo, somos cinco pessoas.
 
RC – Como o Ibri vê a profissão do RI hoje no Brasil, em que estágio estamos? Quais os desafios, os planos da nova diretoria da qual você faz parte, que tomou posse em janeiro, pelos próximos dois anos?
AD – Nosso grande foco será em serviços para associados e no desenvolvimento profissional do RI, por meio de cursos, programas, discussões técnicas, “tradução” das normas dos agentes reguladores para o dia a dia do RI. Este é o papel mais importante que o Ibri tem. Desde 2006 a profissão vem ganhando muito espaço no Brasil, quando assistimos – em 2006, 2007 e 2008, principalmente – a uma onda de IPO (Initial Public Offer, ou oferta inicial de ações na Bolsa de Valores).
 
RC – Se fôssemos comparar a profissão aqui no Brasil e em outros países, o que se destaca?
AD – Aqui, temos situações distintas no mundo do RI, temos empresas listadas em bolsas há bastante tempo, algumas até com ações no exterior, e que já têm um conhecimento profundo de RI, das normas, do backstage, de preparação, de targeting. E, ao mesmo tempo, temos empresas ingressando agora no mundo do mercado de capitais, aprendendo a lidar com os investidores. Não que estas últimas sejam menos importantes, apenas têm menos tempo de estrada. O Ibri tem de lidar com esses dois públicos, promovendo desde discussões bastante técnicas para quem já é experiente até ensinar o bê-á-bá para os novos. Esta é uma situação bastante diferente do que acontece em mercados mais maduros que já passaram pela onda de IPO e desenvolvimento de mercado de capitais décadas atrás. Aqui, temos este contraste...
 
RC – Quantos associados o Ibri tem hoje? E a maioria são veteranos ou novatos?
AD – Temos cerca de 450 associados, entre eles há até representantes de empresas que não têm ainda ações na Bolsa, que querem estar por dentro deste universo para saber de antemão como operar depois de vir a mercado.
 
RC – E o Ibri tem programas diferentes para cada público?
AD – Temos iniciativas diferentes, sim. Temos manuais com ensinamentos mais básicos de RI e, ao mesmo tempo, organizamos debates de questões muito técnicas e específicas. Mesmo os associados que não fazem parte ainda do mercado de capitais participam de tudo, e é interessante ver como é rápida a evolução dos profissionais. E tem de ser, porque não dá para parar o mercado enquanto o profissional se desenvolve, ele precisa aprender isso no dia a dia.
 
RC – Qual é a importância do jogo de cintura para o profissional de RI, uma vez que sua função baseia-se muito na habilidade de se comunicar? Como o Ibri pode acelerar esse aprendizado?
AD – Jogo de cintura é importante, claro, mas a preparação técnica também é fundamental. A preparação consiste em entender os públicos – temos investidores em ações e em renda fixa, investidor pessoa física e hedge funds, fundações... Cada público tem perfis, demandas e comportamentos diferentes, e o RI tem de estar preparado para interagir com esses diferentes públicos. E preparação também no sentido do entendimento de todos os aspectos do negócio da companhia que ele está representando. Além das regras legais, é preciso saber o que pode e não pode dizer.
 
RC – Como você disse, hoje em dia a função do RI está ganhando mais importância. Neste novo cenário, qual sua influência sobre as decisões da alta diretoria, até que ponto o RI consegue mudar os rumos da empresa?
AD – Isso é muito importante, a função do RI está mudando muito em função das Instruções 480 e 481 da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), publicadas no final do ano passado (a primeira diz respeito às informações que as companhias abertas precisam apresentar ao mercado e cria o formulário de referência; e a segunda regulamenta as assembleias de acionistas), que exigem mais transparência das empresas ao mercado, mas também exigem do RI um trabalho maior dentro da empresa, de promover uma conscientização maior de todos os departamentos sobre informações e declarações que devem ser prestadas ao mercado. Temos feedback de diversos associados do Ibri sobre o sucesso desta empreitada. Os profissionais de RI têm conseguido disseminar conceitos de transparência e fazer as diretorias entenderem realmente o que significa prestar informações completas ao mercado, e também têm se esforçado para organizar informações de acordo com o que o mercado quer saber, o que é muito positivo para a empresa. Esta onda por maior transparência está mobilizando as companhias, que já começam a se organizar para discutir contingências e processos judiciais, por exemplo. E o envolvimento de toda a diretoria com essas questões tende a aumentar, porque agora todos declaram que são responsáveis pelas informações, não é mais apenas o diretor de RI o responsável pelas informações ao mercado. Além disso, a empresa agora precisa emitir opiniões sobre seu mercado e fatores de riscos, e todos os diretores agora precisam ficar a par de tudo isso, pois eles também precisam assinar embaixo, depois das Instruções 480 e 481 da CVM. Enfim, isso tudo está mobilizando mais as companhias em relação à função do RI.
 
 
RC – Falando destas instruções, qual o papel do Ibri na discussão de regras com órgãos reguladores como a CVM? Os RI têm encontrado dificuldade em cumprir todas as exigências da 480, no que diz respeito ao formulário de referência (FR)?
AD – Em primeiro lugar, devo dizer que a CVM tem realizado um trabalho excelente pela promoção de uma maior transparência e desenvolvimento do mercado de capitais. Cabe ao Ibri discutir os aspectos práticos destas instruções com o mercado de RI e propor eventuais ajustes finos e melhorias, sempre há o que melhorar. O Ibri tem sido parceiro da CVM, para dar o retorno dos RI às propostas da entidade, é uma abordagem bem construtiva.
 
RC – O Ibri tem comissões para discutir diferentes assuntos?
AD – Sim, temos várias, como a comissão técnica e a de desenvolvimento profissional. E conseguimos rapidamente endereçar questões que surgem em diversas frentes. As comissões se reúnem frequentemente e emitem pareceres, divulgados a todos os associados.
 
RC – O Ibri realiza pesquisas para conhecer melhor os associados e suas demandas?
AD – Fazemos pesquisas, mas introduzimos enquetes, que são postadas em nosso site, para agilizar o processo de ouvir os associados. É mais rápido do que responder dez folhas...
 
RC – E quais são as descobertas que a diretoria fez por meio dessas enquetes? Quais são hoje, depois de superada a fase aguda da crise e ingressado em fase de crescimento, os principais desafios dos RI?
AD – Diria que tivemos um longo período de grande preocupação com a crise, em 2008 e 2009; depois, uma fase de acomodação às novas instruções da CVM (assembleias e FR) no primeiro semestre deste ano; e agora, daqui para frente, as preocupações e os esforços estão concentrados em como viabilizar projetos de crescimento. A maioria das companhias listadas tem hoje projetos de crescimento e desenvolvimento no Brasil. O desafio é duplo: onde captar recursos para investimentos e como comunicar bem esses planos ao mercado.
 
 
RC – Há, ainda, o desafio de continuar, em paralelo, a explicar ao mercado as informações dos balanços na nova linguagem de padrão internacional (International Financial Reporting Standards, ou IFRS) e o novo formulário de referência no segundo semestre...
AD – Como eu disse, algumas já estavam acostumadas a este maior disclosure por estarem em mercados internacionais há anos, com ações ou programas de captação de bônus. Mas, para as novas, tudo isso é diferente, faz parte da curva de aprendizado, e como ao mesmo tempo elas estão crescendo, precisam trocar a turbina com o avião voando. Ou seja, vão precisar se adaptar a esta nova realidade ao mesmo tempo que compram novas empresas, buscam oportunidades no exterior e enfrentam a concorrência acirrada até de empresas estrangeiras.
 
 
RC – Existe perspectiva de acontecer um novo boom de IPO neste ano ou no próximo, dado que a crise passou e há muitas empresas com planos de crescimento? Entre os associados do Ibri que ainda não têm capital aberto, por exemplo, você diria que muitos estão planejando entrar em breve?
AD – Não necessariamente IPO, mas o mercado de capitais está recuperando o vigor que tinha antes da crise, vimos muitas operações de follow on e mesmo algumas estreias na Bolsa no primeiro semestre. Mas, com as eleições, tradicionalmente ocorre uma esfriada e as empresas esperam para ver. Mas a tendência é muito boa, a maneira como o Brasil atravessou a crise foi exemplar e o mercado de capitais reflete isso, tanto no mercado de ações quanto no de dívida (debêntures e outros títulos de renda fixa). É difícil acertar o timing exato, mas a tendência é muito favorável.
 
RC – Em relação à saída do Brasil da crise – que contou, claro, com a ajuda do governo e do momento macroeconômico mais favorável –, parece que os RI tiveram forte influência positiva na maneira como as empresas lidaram com a situação.
AD – Com certeza. Tanto na fase do boom dos IPO quanto na época mais aguda da crise, os estrangeiros tiveram papel importante no mercado de capitais – boa parte das colocações foi feita para investidores em mercados desenvolvidos, e isso deve continuar. Eles continuarão peça importante na base acionária das empresas brasileiras. A maior transparência e presença das companhias locais no mercado internacional, fruto do bom trabalho dos RI, foi fundamental para atrair e manter esses investidores, mesmo na crise. A quantidade de conferências, reuniões e apresentações de empresas brasileiras no exterior cresceu e hoje, muito mais do que em 2007 ou 2008, a maioria dos investidores conhece o Brasil e as empresas brasileiras, o que tem contribuído para a maior presença dos estrangeiros aqui, o que é muito importante.
 
 
RC – Em relação ao desenvolvimento profissional, por exemplo, quais os planos da nova diretoria do Ibri? Afinal, não existe faculdade de RI.
AD – Estamos discutindo com os diferentes públicos a ideia de lançar um programa de certificação do RI, que vai dar mais segurança para quem contrata o profissional e para o investidor que investe na empresa que o contrata. Esses programas existem em outros mercados e o Ibri está, neste momento, em contato também com outras associações que já têm seus próprios programas de certificação instituídos. Mas ainda não há nada decidido.
 
 

 

 

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